A destruição de ferrovias na enchente de 2024 reduziu a malha ferroviária ativa do Rio Grande do Sul de 1.680 para 921 quilômetros. Atualmente, o estado está praticamente desconectado do restante do país por trilhos, sem composições partindo rumo a centros consumidores como São Paulo. Para recuperar o setor, o Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul (Codesul) e o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) licitam uma consultoria para diagnosticar a Malha Sul, com contrato previsto para ser assinado até o fim deste mês.
Crise na malha ferroviária do RS
A destruição de trechos da malha ferroviária durante a enchente agravou os gargalos históricos de infraestrutura no estado. Em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre, locomotivas paradas há mais de dois anos ilustram a crise logística. Antes, os trens transportavam combustíveis para o Polo Petroquímico e fertilizantes para diversas regiões, mas hoje refletem a perda de competitividade no escoamento da produção gaúcha. A extensão em operação caiu de 1.952 quilômetros em 2016 para 921 quilômetros atualmente, sendo que antes do desastre climático havia 1.680 quilômetros em funcionamento. Um dos poucos trechos ainda ativos liga Cruz Alta ao Porto de Rio Grande, essencial para a safra de grãos.
Impactos econômicos e desafios logísticos
A Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) alerta que a deficiência ferroviária ameaça a economia local, especialmente diante das mudanças tributárias previstas. Ricardo Portella, vice-presidente da entidade, destacou a importância da logística para manter a competitividade do estado no mercado consumidor do Sudeste. A discussão ganhou força após o governo federal apresentar um novo modelo de concessão ferroviária, criticado pelos três estados da região Sul.
Iniciativas para recuperação e expansão
Em resposta, Codesul e BRDE lançaram licitação para contratar uma consultoria técnica que elaborará um diagnóstico da Malha Sul e proporá alternativas para reconstrução e expansão. O contrato terá prazo de dez meses para conclusão. Leonardo Busatto, diretor de Planejamento do BRDE, afirmou que o estudo propõe um modelo integrado ampliado, conectando todas as regiões do RS ao Porto de Rio Grande, ao Oeste de Santa Catarina, aos portos catarinenses e ao restante do Brasil, visando sustentar a economia do estado pelos próximos 30 anos.
Desafios nas rodovias e alternativas logísticas
Além das ferrovias, as rodovias enfrentam atrasos e exigem investimentos significativos. A BR-290, uma das principais ligações do estado, está em obras de duplicação entre Eldorado do Sul e Pantano Grande, com 115,7 quilômetros e investimento previsto de R$ 1,4 bilhão, mas sofreu atrasos após a enchente. Na BR-470 e BR-116, os investimentos ultrapassam R$ 700 milhões. As perdas logísticas e industriais causadas pelas inundações são estimadas entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões.
RS aposta em hidrovias como alternativa
Enquanto ferrovias e rodovias enfrentam limitações, as hidrovias surgem como alternativa viável. O estado possui 375 quilômetros de canais navegáveis sob gestão da Portos RS, que defende investimentos em dragagem para recuperar a capacidade de navegação. Wilen Manteli, presidente da Hidrovias RS, destacou que já há condições para receber navios de longo curso, mas alguns trechos e acessos industriais ainda precisam de melhorias.
Em Guaíba, uma indústria de celulose utiliza a hidrovia como peça central da operação, transportando 95% da produção destinada ao Porto de Rio Grande por embarcações. Uma barcaça transporta 4,3 mil toneladas por viagem, equivalente a cerca de 140 caminhões. A empresa também realiza logística reversa para trazer matéria-prima no retorno. Roberto Hallal, diretor de logística da CMPC, ressaltou a redução de cerca de 110 mil veículos nas rodovias e a diminuição da emissão de carbono.
Impactos para pequenos negócios e a necessidade de integração
Pequenos negócios também sofrem com os gargalos logísticos. Em Eldorado do Sul, um laticínio utiliza estradas de chão para coletar leite, enfrentando desgaste de pneus e manutenção frequente. Após 45 dias de interrupção na produção devido à enchente, a empresa retomou as vendas, mas os custos de transporte para São Paulo permanecem altos, variando entre R$ 500 e R$ 1.000 por frete.
O professor Luiz Afonso Senna, da UFRGS, destaca a precariedade da malha atual, com apenas 10% das rodovias pavimentadas e 5% em boas condições. O estado conta com menos de 500 quilômetros de rodovias duplicadas, enquanto São Paulo possui cerca de 11 mil quilômetros. Senna defende a prioridade no funcionamento integrado dos modais, com rodovias para acessibilidade, ferrovias para transporte de grandes volumes a custos menores e hidrovias, desde que portos e dragagens estejam adequados.
